Certa vez, um médico psiquiatra de um hospital de Kiev, que tinha um caso bastante complicado, resolveu pedir a ajuda do então campeão mundial de época, Mikhail Tal.

Havia um interno no hospital psiquiátrico que tinha noções de xadrez, mas que só admitia jogar com Deus. E o mais grave, ganhava sempre, chegando a esnobar o criador com frases do tipo “ora Deus, esta abertura foi muito fraca, tome um xeque-mate”, jogava, discutia e ironizava Deus elevando o olhar ao céu a cada partida.

Como Tal era o campeão mundial e estava no auge da fama – e o interno só lia jornais e revistas que tratavam de xadrez – aceitou recebê-lo em seu quarto.

Foi um sucesso quando Tal chegou no hospital, pois ele era muito conhecido em toda União Soviética. Entrou no quarto, cumprimentou o louco e desafiou-o para uma partida. O louco ironizou dizendo que ele era muito fraco. Bem, jogaram, e o louco ganhou.

O médico desesperou-se, pois pretendia acabar com o ego do maluco e não alimentá-lo. O louco riu à beça e, em seguida desafiou Deus para uma partidinha.

Um ano depois, com aquela derrota incrível e surpreendente a incomodá-lo, Tal apresentou-se em Leningrado, jogando uma simultânea contra 250 enxadristas. Cumprimentou a todos e identificou entre eles o seu velho conhecido e vencedor, o louco.

Chamou os jornalistas e informou que provavelmente venceria 249, mas que inevitavelmente perderia uma. Iniciou-se a simultânea e Tal obteve 250 vitórias.

Satisfeito, saiu correndo em busca de um telex e mandou uma mensagem para o médico psiquiatra, em Kiev: “Caro amigo, consegui vencer o louco”. Dois dias depois recebeu a resposta do médico, em Moscou: “Grande coisa. Ele teve alta há seis meses!”.

 

Autor: Cézar Augusto Sizanoski

Fonte: Revista do Clube de Xadrez Epistolar Brasileiro